segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Gestalt-terapia


Essa abordagem da Psicologia que nasceu da conjunção de diversas teorias:

·         A Psicanálise;
·         A Psicologia da Gestalt;
·         A teoria organísmica;
·         A Teoria de Campo;
·         O holismo;
·         O pensamento oriental;
·         Os princípios do Humanismo;
·         A Fenomenologia e o Existencialismo.

Psicologia da Gestalt é uma abordagem da psicologia que focaliza a organização da percepção e do pensamento como um “todo” preferencialmente aos elementos individuais da percepção. A percepção depende de fatores objetivos e de fatores subjetivos. Os aspectos objetivos dependem das necessidades do sujeito. E toda essa relação, ou melhor, esse contato, se dá no campo organismico/meio. Esse é um processo contínuo de reciprocidade em que o homem e mundo se transformam. A experiência humana é relação, é contato. Viver é contato. (Logo abaixo leia mais sobre a explicação o conceito de Contato). 

 
O segundo fundamento apresentado por Perls é a Homeostase. Importando o conceito da Biologia, Perls entende que o comportamento humano se dá a partir de uma importante premissa: eles são governados pelo processo que os cientistas chamam de homeostase e os leigos chamam de adaptação. Toda a vida é caracterizada pelo jogo contínuo de estabilidade e desequilíbrio do organismo.

O conceito de organismo também é amplo, sendo cada ser humano um organismo completo e funcional por si mesmo.

O terceiro fundamento da Gestalterapia pretende declarar que o ser humano é um organismo unificado, não podendo ser separado em partes sem que se perca a visão e a compreensão do todo.

Este conceito nasce como uma crítica frontal às escolas psicodinâmicas e comportamentais, que fragmentam a experiência humana, uma a partir das determinações do inconsciente e outra a partir dos condicionamentos e aprendizagens. Para Perls isso não é possível, pois o ser humano é inteiro, uno, indivisível.

O quarto fundamento apresentado por Perls é o Contato.
Contato é Processo contínuo de transformação e crescimento na troca com o meio.
Organismo e meio se mantém numa relação de reciprocidade em que um não é vitima do outro. O contato com o meio é inevitável e indispensável na experiência humana. O surgimento da neurose pode se dar justamente nesta dificuldade de se manter um contato saudável com o meio. A fronteira estabelece o contorno, o limite, que é o local onde ocorre o contato. O Eu e o Não Eu; O Eu e o Outro; O Conhecido e o desconhecido. A fronteira delimita e ao mesmo tempo possibilita o contato, inclui o contato.

Mas o contato também pode se dar consigo mesmo, em função de nossa habilidade de dividir-se em observador e objeto observado; Isto promove a integração, a apropriação de si mesmo - O colocar sob o domínio do “eu” ou “habitar” aspectos que anteriormente não estavam sob este domínio.

As Fronteiras do “EU’ - Gama de Fronteiras, que definem Ações - Idéias - Pessoas - Valores - Ambientes - Imagens. Podem ser rígidas ou Flexíveis.

Fronteiras do Corpo
Fronteiras - de - valor
Fronteiras de Familiaridade
Fronteiras Expressivas
Fronteiras de Exposição

Qualquer tipo de relação viva que ocorre na Fronteira Eu - Não Eu, é contato. Ver, ouvir, pensar, ter consciência, falar, manipular, lutar, etc. São formas de contato. A Fronteira entre o Self e o ambiente deve ser permeável para permitir trocas, porém suficientemente firme para ter autonomia. Na Gestalt-Terapia trabalhamos com as confusões, impedimentos na fronteira de contato que diminuem as possibilidades de crescimento e transformação criativa da relação homem / mundo.


Quando a fronteira entre o Self e o outro perde a permeabilidade a nitidez ou enrijece, acontece os distúrbios de contato. Para a Gestalt Terapia o contato ou a qualidade do contato é um dos critérios na definição de saúde e adoecimento.

 
SELF é o sistema de contatos em qualquer momento no campo organismo meio. É o sistema complexo de contatos necessários ao ajustamento no campo imbricado. É o processo de figura-fundo em situações de contato. Seu ser no mundo – variável conforme as situações.

Os três modos do Self são:

• A função “Id” ligada às necessidades vitais, tradução corporal: fome, sede, satisfeito.
• A função “Eu” é ativa, ligada as escolhas, rejeições, responsabilidade. É a tomada de consciência que permite a manipulação com o meio.
• A função “Personalidade”, a sua autoimagem, ela que permite a integração e assimilação.

As resistências

Este mecanismo de defesa ou de evitação do contato depende de sua intensidade, sua maleabilidade ou momento de ocorrência, podendo ser saudáveis ou patológicos. As gestalten inacabadas, ciclos interrompidos, perturbações na fronteira de contato, não permitem o desabrochar do self. Na confluência, a separação entre o Self e o outro perde a nitidez. A fronteira é tão tênue que permite a fusão eu-outro. No isolamento, a fronteira torna-se tão impermeável que a união é perdida.

Na retroflexão há uma substituição, a ação acontece no Self e não no meio. A retroflexão é uma divisão dentro do Self, uma resistência a aspectos do Self pelo Self. A ilusão da auto suficiência - substitui o Self por ambiente.

Na introjeção o material externo é absorvido sem discriminação ou assimilação. Ex. engolir sem mastigar as ideias, hábitos etc. Na introjeção o self é invadido pelo mundo externo.

Na projeção é o self que transborda é invade o mundo exterior. A projeção é a tendência a atribuir ao meio a responsabilidade por aquilo que tem origem no self.

A deflexão é o ato de evitar o contato direto ou a awareness. Há um desvio da energia, cria-se um escape. No bom funcionamento, há alternância entre união e separação.

Awareness é, para Perls, a sua habilidade humana de estar em contato com seu campo perceptual total. É a capacidade de estar em contato com sua própria existência, de notar o que ocorre dentro de você ou à sua volta, de conectar com o ambiente, com outras pessoas e com você mesmo; saber a que você está sensível ou o que está sentindo ou pensando; como você está reagindo neste momento. A Awareness não é somente um processo mental: ela envolve todas as experiências, sejam elas físicas ou mentais, sensórias ou emocionais. É um processo conjunto no qual a totalidade do organismo está
engajada: ‘Awareness é como a brasa de um carvão, que provém de sua própria combustão (o organismo total)’. (Perls, Hefferline e Goodman, 1951/1973, p.106)[1].

Awareness - “É uma forma de experienciar, é o processo de estar em contato com o evento mais importante do campo organismo /meio com pleno suporte sensório-motor, emocional, cognitivo e energético. Um continuum de awareness, fluído e não interrompido, leva a uma descoberta, uma apreensão imediata da unidade obvia de elementos isolados no campo”. (Insight)
Através desse contato, novos todos são criados. (Yontef, 31). O contato com awareness gera totalidades significativas novas e, portanto, é em si a integração de um problema. Awareness compreende o conhecimento do ambiente, a responsabilidade pelas escolhas, o auto conhecimento, a auto-aceitação e a capacidade de contato.

  • Eu posso ter contato sem awareness mas não posso ter awareness sem contato.

  • Awareness é sempre aqui e agora, mutante, desdobrando-se, transcendendo.

  • Awareness só é eficiente quando fundamentada e energizada pela necessidade predominante presente no organismo, pelo reconhecimento direto da realidade da situação, e pelo aqui e agora.

  • Awareness - é método por meio do continuum de presentificação. É processo, e também é o próprio objetivo da psicoterapia.


SUPORTE
O homem é uma parte do campo organismo /meio. Visto em si mesmo - ele é um todo ou parte composto de partes, dimensões:

•orgânica
•emocional
•cultural
•intelectual

O homem tem memória - que permite o acesso a suas experiências passadas.

  • Imaginação - que permite acessar experiências virtuais.
  • Inteligência - acesso ao abstrato, simbólico.

O homem é um sistema no qual as partes são inter-relacionadas dinamicamente numa
perspectiva de organização e auto-regulação que visa um equilíbrio dinâmico.

SUPORTE É A INTER-RELAÇÃO DESTE TODO

Suporte inclui:

  Fisiologia
  Postura
  Coordenação
  Equilíbrio
  Aprendizagem
  Experiências vividas
  Sensibilidade
  Mobilidade
  Linguagem
  Hábitos
  Costumes
  Defesas adquiridas

  •  O Auto Suporte - essencial para o contato. Na terapia trabalhamos o desenvolvimento do auto-suporte. Durante o processo parte do suporte pode estar no terapeuta ou na relação terapêutica.

Porém visamos a passagem do apoio excessivo em suporte alheio para o restabelecimento de recursos próprios (vida adulta). Também podemos trabalhar com o cliente a conscientização da situação de interdependência humana.

Na relação terapêutica, o terapeuta precisa saber de seu auto suporte para garantir a qualidade de sustento do campo terapêutico. A falta de suporte é experienciada como ansiedade, por exemplo: nas manifestações corporais. O suporte é tudo que se tem à disposição para o contato pleno.

AUTO REGULAÇÃO ORGANISMICA

O processo de auto-regulação (homeostase) é que possibilita ao organismo manter seu
equilíbrio, sua saúde sob condições adversas. A auto-regulação é o processo pelo qual o
organismo interage com seu meio na constante busca pela satisfação de suas necessidades.

A auto-regulação é a capacidade do organismo atualizar suas potencialidades, baseada num reconhecimento completo e relativamente acurado da situação vivida no Campo Organismo / Meio.

A auto-regulação do organismo se encarrega de descartar os padrões fixos do passado tão logo tenham perdido sua utilidade. Assim o conhecimento inútil é esquecido, o caráter dissolvido. A lei se aplica em ambas as direções:

“Um padrão persiste pela função e não por
inércia; e um padrão é esquecido não devido
a um lapso de tempo, mas sim devido a falta
de função”.

“Na auto-regulação a escolha e o
aprendizado acontecem de forma holística
com uma integração natural de corpo e
mente, pensamento e sentimento,
espontaneidade e deliberação”.

A auto regulação exige que o habitual se torne totalmente perceptivo quando necessário.

AJUSTAMENTO CRIATIVO

É a capacidade do indivíduo se auto regular dentro do meio de maneira ativa, por meio
de um contato vivo, espontâneo, autêntico e que permita abertura ao novo e ao potencial
criativo e transformador do indivíduo.

“O ajustamento criativo é a própria dialética
de continuidade e mudança com a insersão
estrutural do novo no velho, para formar
comele uma nova configuração.”
A mobilidade estrutural do todo é a base da criatividade. O ajustamento criativo inclui auto-regulação, abertura ao novo, contato vivo e vitalizado em contraposição a controle externo, dependência, aprisionamento e comportamento estereotipado.

O ajustamento criativo não se confunde com conformismo disfarçado ele sugere a superação das estruturas relacionais que já não são funcionais, sem negá-las enquanto
matriz.
A pessoa que revela interação criativa assume responsabilidade pelo equilíbrio entre o Self e seu meio.

GESTALT INACABADA

Situação inacabada subjacente à gestalt incompleta e que atrapalhará a formação de novas e fortes gestalten, impedindo o crescimento e o desenvolvimento do indivíduo.
Experiências vividas sem um fechamento satisfatório e que clamam por um fechamento.

A neurose e a psicose são concebidas como perturbações na elasticidade do processo de formação figura-fundo. Na psicose a disfunção está mais agravada.

GESTALT CRISTALIZADA

No cerne dos comportamentos disfuncionais ou neuróticos, percebemos a perpetuação do
modo de ser que não assimila as alterações do meio, as novas necessidades ou possibilidades de respostas. Esses comportamentos são processos cristalizados.Teoria paradoxal da mudança

“A mudança ocorre quando uma pessoa se torna
o que é, e não quando tenta converter-se no

que não é.”


VISÃO GERAL DO FUNCIONAMENTO DA GESTALT




Aula Professor Roberto Peres Veras & Professora Ivete ministradas no curso de psicologia da Faculdade Unisa sobre Abordagens Humanistas. 

Fenomenologia e Existencialismo

O existencialismo que se propõe a entender o ser humano a partir da sua existência, antes de procurar a sua essência. Os existencialistas entendem que aquilo que marca a vida diária das pessoas é que se oferece como a melhor chave de entendimento do fenômeno humano.

No existencialismo o homem cria seu ser-no-mundo e é responsável por suas escolhas; Ser-no-mundo é um modo peculiar de existir. Cada ser humano é um ser-no-mundo distinto. É um Ser que se relaciona com o Mundo. Por “Mundo” podemos entender, segundo Forghieri (2006), o conjunto de relações significativas dentro do qual a pessoa existe. Além disso, pode-se entender o mundo sob três aspectos diferentes e simultaneamente relacionados: o “Mundo Circundante” (É o contato do indivíduo com as situações concretas, como alimentar-se, ter interagir com a natureza, suas necessidades fisiológicas, e etc.), o “Mundo Humano” (É a relação de uma pessoa com outra pessoa, uma relação de comunicação e troca) e o “Mundo Próprio” (É a relação de um ser consigo mesmo, o significado que dá as experiências e a possibilidade de se atualizar).

Essa vivência de ser-no-mundo permite que a pessoa encare o tempo e o espaço de maneira distinta, própria, dependente da sua forma de existir e das características da sua experiência. Trata-se da capacidade humana de “Espacializar” e “Temporalizar”, conceitos indispensáveis na compreensão do ser humano na perspectiva do Existencialismo.

Temporalizar é uma experiência que somente os seres humanos têm. Os animais não têm a relação que nós estabelecemos com o tempo. Somente nós é que conseguimos atribuir significado peculiar ao tempo, significado que vai além do cronológico. Só nós podemos vivenciar o tempo de acordo com a nossa experiência. Por exemplo, se uma pessoa viveu momentos difíceis é possível que ela temporalize pensando sempre no passado, que é uma condição muito presente em pessoas depressivas. A temporalização tanto pode ser voltada para o passado (recordações), para o presente, quanto para o futuro (antecipações).

Espacializar, segundo Forghieri (2006), consiste no modo como vivenciamos o espaço da nossa existência. Ou seja, atribuímos significações subjetivas ao espaço que ocupamos no nosso existir. A espacialização tanto pode ser atrativa como repulsiva. Uma pessoa pode se atrair mais para um ambiente do que para outro, que lhe desperta memórias e sentimentos repulsivos.

Na filosofia, a expressão "condição humana" tende a suplantar a de "natureza humana" para designar a situação singular e única de cada homem no mundo (físico e social) e na história. De acordo com o existencialismo, essa condição humana seria a de nascimento, crescimento, envelhecimento, adoecimento, sofrimento e morte.

Quando uma criança nasce, o mundo está estabelecido assim como os anseios e as preocupações diante do mundo. Porém, com o seu nascimento a história no mundo se inicia tanto para a criança (com as questões fundamentais que para ela aparecem), como para os que a acompanham. Com ela também se inicia a esperança, que lá surja como possibilidade, respostas às questões do destino humano. O seu reconhecimento como indivíduo separado e, ao mesmo tempo, como ser humano semelhante aos demais é uma condição paradoxal, porque essa é uma questão que nos remete à singularidade e universalidade dos seres humanos. Por tanto, trata-se de uma construção pessoal pertencendo a coletividade. Além disso, vivenciar a condição humana permeia uma condição paradoxal de materialidade, no que se refere às questões corpóreas e espiritualidade, de divindade e alma (Pés na terra sonhando com o céu). Um ser finito que anseia pelo infinito (ideias, sonhos, utopias); E percebe conceitos sobre o que é mortal e a imortalidade; Vivenciando um espaço privado e compartilhado; Ordinários almejando o extraordinário. (Heráclito).
A condição humana permite busquemos o enraizamento e a abertura. Enraizamento seria a constituição das raízes na condição humana. “Encontrar raízes é encontrar lugar a partir do qual é possível destinar-se.” Cardella (2011). Criar sentido. Podendo seguir numa Dimensão horizontal: transito no mundo e em uma Dimensão vertical: altitudes e profundidades do existir humano.

A condição humana pressupõem:

Registros Ônticos, ou seja, registros dos contatos: a biografia do ser, suas necessidades, conflitos, limites, projetos e etc...

Registro ontológico (Estudo da existência): Ethos humano. (Ethos significa costumes de um grupo). Constituem o Ethos: a hospitalidade; o pertencimento; o reconhecimento; a singularidade; a criatividade; a responsabilidade; a transcendência.
O método experimental: Todos os cientistas, de qualquer área, buscam captar e explicitar o verdadeiro significado da realidade e para isso entendem que precisam de objetividade. Esta é a lógica da ciência moderna. O método experimental busca a objetividade através da anulação da subjetividade. A partir do século XIX, o método experimental passou a ser utilizado por todas as ciências, inclusive pela Psicologia, o que implicou em considerar o ser humano como um objeto entre tantos outros objetos na natureza, governado por leis naturais que determinam seus eventos psicológicos.


A fenomenologia é um tratado científico a respeito da descrição e classificação dos fenômenos. É uma ciência subjetiva que estuda o próprio fenômeno. O termo “Fenomenologia” provém do grego “phainesthai” que é tudo aquilo que se revela, não somente aquilo que aparece ou parece e, “logos” que significa estudo, pensamento -capacidade de refletir. Por tanto, é uma reflexão sobre um fenômeno ou sobre aquilo que se mostra. O que se mostra e como se mostra.
           
Surge no cenário da filosofia como uma contestação ao método experimental, especialmente quanto ao seu uso pelas ciências do ser humano, como a Psicologia, por exemplo. A Fenomenologia implementa um modo diferente de se fazer ciência e adquirir conhecimento. Apresenta um método para compreender o sentido das coisas, tanto temas filosóficos, quanto temas tradicionais. Assim, temos que percorrer um caminho para chegar à compreensão do sentido das coisas. *Edmund HUSSERL, proponente da Fenomenologia busca interpretar o mundo através da consciência de um determinado sujeito, segundo as suas experiências. Essa é a essência de um determinado fenômeno, que é encontrada através do processo de redução fenomenológica (Esse é consciência, em um fenômeno que consiste em se estar consciente de algo. Coisas, imagens, fantasias, atos, relações, pensamentos, eventos, memórias, sentimentos, etc. experiências de consciência), todas as coisas são caracterizadas por serem inacabadas e por estar em constante processo de modificação. Ou seja, a fenomenologia é um método que pretende chegar ao fenômeno por *visão categorial para compreender sua essência.

  • A percepção categorial é imediata, espontânea, pré-reflexiva, própria da vida cotidiana. Nela não há separação entre consciência e objeto, este é captado na sua totalidade por intuição.
·         Considerações sobre o pai da fenomenologia, Edmund Husserl - (1859 -1938) morava em um antigo império austríaco hoje república checa. Estudou física, matemática, astronomia e filosofia em varias universidades, como Berlim e Viena. Em 1884, foi para Viena, obter contato com Franz Brentano e descobre sua vocação filosófica.

A Fenomenologia entende que o caminho para se compreender o fenômeno deve ser construído pela descrição. A descrição leva o observador à experiência do fenômeno. Assim que o investigador se envolver na observação, uma experiência entre ele e o fenômeno começa a se processar, dando-se, a seguir, a automanifestação do fenômeno, ou seja, o próprio fenômeno inicia o seu processo de revelação. “Suspenso” de qualquer julgamento ou teoria, o observador fenomenológico tem condições de ver atentamente e chegar à “descrição” do fenômeno, e a descrição é um ato que nasce da observação desnudada de apriorismos.

A relação sujeito-objeto, ocorre no direcionamento da consciência (de um ser) para um objeto e depois volta do objeto para a consciência, é assim que se dá a intencionalidade. Ou seja, a consciência é sempre intencional e está constantemente voltada para um objeto e este é sempre objeto para uma consciência. A intencionalidade é o ato de atribuir um sentido. É ela que unifica a consciência e o objeto, o sujeito e o mundo.

Uma definição simplificada de Fenomenologia.
“Um modo de investigação da realidade que consiste na investigação e descrição cuidadosa dos fenômenos, com o compromisso por parte do investigador de deixar de lado ideias pré-concebidas, teorias explicativas, apriorismos e pressupostos.”

Esse processo de investigação se constitui da seguinte forma:
Vemos a realidade, a observamos com atenção, a descrevemos fielmente, e damos nossa compreensão cuidadosa, trabalhamos no aqui e agora; estando atentos à temporalidade, à espacialidade, como a pessoa se revela na terapia, estamos atentos à pessoa como um todo.
(Ribeiro, J.P.,1997)
Atitude fenomenológica é de:
Questionar o que se vê;
Buscar naquilo que se apresenta o como da relação;
Desdobrar o sentido da fala do cliente: o que é?
“Ir à coisa mesma” perseguir o dado que se repete;
Não só descreve mas percebe o diferente no que se repete.

O terapeuta com seus instrumentos ajuda o cliente a perceber seus próprios instrumentos para poder lidar com suas questões. Não só descreve mas percebe o diferente no que se repete. De acordo com a fenomenologia devemos questionar o que se vê, buscar saber como se dá as relações e o desdobrar do sentido da fala do cliente (O que se repete? Como se apresenta?). O comportamento repetido acaba surgindo quando há um processo inacabado e que necessita de fechamento.

Aula Professor Roberto Peres Veras & Professora Ivete ministradas no curso de psicologia da Faculdade Unisa sobre Abordagens Humanistas. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

ADOLESCÊNCIA NORMAL - Um estudo sobre a visão de ABERASTURY E CALLIGARIS.

ABERASTURY. (1981) ADOLESCÊNCIA NORMAL - UM ENFOQUE PSICANALÍTICO. ARTMED. PORTO ALEGRE.


A partir do olhar de Ana Freud sobre a adolescência, que considera “toda a comoção neste período da vida como sendo normal, assinalando também que seria anormal a presença de um equilíbrio estável durante este processo”, Aberastury denominou a “síndrome da adolescência normal”, que é perturbada e perturbadora para o mundo adulto. Mas é através desse desequilíbrio que o adolescente vai formar a sua identidade. “Por isso, o adolescente deve enfrentar o mundo dos adultos para o qual não está totalmente preparado, mas ,além disso, deve desprender-se de seu mundo infantil no qual e com o qual, na evolução normal, vivia cômoda e prazerosamente, em relação de dependência, com necessidades básicas satisfeitas e papéis claramente estabelecidos.” Página.9 e 10.

Lutos que precisam ser elaborados pelos adolescentes:

  1. O luto do corpo infantil;
  2. O luto pelo papel da identidade infantil;
  3. O luto pelos pais da infância;
  4. O luto pela bissexualidade infantil.


De acordo com Aberastury, estes lutos são perdas substanciais de personalidade e, algumas vezes, transitórias e fugazes, podem adquirir as características do luto patológico. Pois é o desequilíbrio causado pelos lutos mencionados que provocam a sua evolução e a formação de sua identidade. (...) Para os adultos, é difícil aceitar as flutuações de humor do adolescente sem se comover, já que isso o faz reviver as ansiedades básicas que tinham sido controladas até certo ponto. (...) Mas é através do processo de elaboração desses lutos que o adolescente recorre normalmente a manejos psicopáticos de atuação, que identificam a sua conduta. (...) É importante notar que o que “diferencia o adolescente normal do psicopata é que este persiste com intensidade no uso deste modo de comportamento.” Página 10.

“Estas mudanças, nas quais se perde a sua identidade de criança, implicam a busca de uma nova identidade, que vai se construindo num plano consciente e inconsciente. O adolescente não quer ser como determinados adultos, mas em troca, escolhe outros como ideais; vai se modificando lentamente e nenhuma precipitação interna ou externa favorece este trabalho. (...) “o luto pelo corpo é dupla: surgem características sexuais secundárias”, que são o aparecimento da menstruação nas meninas e o sêmen nos meninos, isso lhes impõem a determinação da sexualidade e o papel que lhes impõem a busca por um parceiro e a procriação. Página 14.

“Ocorre que também os pais vivem os lutos pelos filhos, precisam fazer o luto pelo corpo do filho pequeno, pela identidade de criança e pela sua relação de dependência infantil. Agora são julgados por seus filhos e, a rebeldia e o enfrentamento são mais dolorosos se o adulto não tem conscientes os seus problemas frente ao adolescente.” Página 15.

“O desprezo que o adolescente mostra frente ao adulto, é, em parte, uma defesa para aludir a depressão que lhe impõe o desprendimento de suas partes infantis, mas é também um juízo de valor que deve ser respeitado.” (...) “entretanto, esta dor é pouco percebida pelos pais, que costumam fechar-se numa atitude de ressentimento e reforço da autoridade, atitude que tona ainda mais difícil este processo.”. página 16.   

“O sofrimento, a contradição, a confusão, os transtornos são deste modo inevitáveis; podem ser transitórios, podem ser elaboráveis, mas devemos perguntar-nos se grande parte da sua dor não poderia ser suavizada mudando estruturas familiares e sociais.” Página 17.

Nesse embate com os pais, o adolescente pode “sofrer crises de susceptibilidade e de ciúmes, exige e precisa vigilância e dependência, mas sem transição surge nele uma rejeição ao contato com os pais e a necessidade de independência e de fugir deles”.(...) “A qualidade do processo de amadurecimento e crescimento dos primeiros anos, a estabilidade nos afetos, a soma de gratificações e frustrações e adaptação às exigências ambientais vão marcar a intensidade e a gravidade destes conflitos”. Página 18.

Outro exemplo de “incompreensão: ao adolescente se exige que defina a sua vocação e, ao mesmo tempo, lhe reprimem as primeiras tentativas desta vocação.” Página 20.
Por isso surge a exigência do direito de liberdade. De acordo como Aberastury, são três as exigências básicas de liberdade que apresenta o adolescente de ambos os sexos a seus pais:

  1. A liberdade nas saídas e horários;
  2. A liberdade de defender uma ideologia;
  3. A liberdade de viver um amor e um trabalho;

“A toda a adolescência tem, além da característica individual, as características do meio cultural, social e histórico desde o qual se manifesta, e o mundo em que vivemos nos exige mais do que nunca a busca do exercício da liberdade sem recorrer à violência para restringi-la. “ página 23.

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CALLIGARIS, Contardo. A Adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000.

Cap. 1 – ELEMENTOS DE DEFINIÇÃO

A ADOLESCÊNCIA COMO MORATÓRIA (aqui entendida como retardar;  prazo de espera do adolescente para entrar na fase adulta)
A ADOLESCÊNCIA COMO REAÇÃO E REBELDIA
A ADOLESCÊNCIA IDEALIZADA
DURAÇÃO DA ADOLESCÊNCIA

Cap. 2 – “O QUE ELES ESPERAM DE MIM?”
INSEGURANÇA

O adolescente perde (ou, para crescer, renuncia) a segurança do amor que era garantido à criança, sem ganhar em troca outra forma de reconhecimento que lhe pareceria, nessa altura, devido.

Ao contrário, a maturação, que, para ele, é evidente, invasiva e destrutiva do que fazia sua graça de criança, é recusada, suspensa, negada. Talvez haja maturação, lhe dizem, mas ainda não é maturidade. Por conseqüência, ele não é mais nada, nem criança amada, nem adulto reconhecido. (p.24)

Entre criança que se foi e o adulto que ainda não chega, o espelho do adolescente é freqüentemente vazio. Podemos entender então como essa época da vida possa ser campeã em fragilidade de auto-estima, depressão e tentativas de suicídio.

Parado na frente do espelho, caçando as espinhas, medindo as novas formas de seu corpo, desejando e ojerizando seus novos pêlos ou seios, o adolescente vive a falta do olhar apaixonado que ele mereceria quando criança e a falta de palavras que o admitam como par na sociedade dos adultos. A insegurança se torna assim o traço próprio da adolescência. (p.25)

INTERPRETAR OS ADULTOS
Uma (?) interrogação do adolescente: qual seria o requisito para conquistar uma nova dose de amor dos adultos que ele estima ter perdido junto com a infância. Qual seria o gesto necessário para redirecionar o olhar adulto, que parece ter-se desviado. Qual atributo que garantiria, enfim, que ele fosse reconhecido entre ‘os grandes’.
Será que os próprios adultos sabem? Aparentemente não: a adolescência assume assim a tarefa de interpretar o desejo inconsciente (ou simplesmente escondido, esquecido) dos adultos. (p.26)
Em geral, o adolescente é ótimo intérprete do desejo dos adultos. Mas o próprio sucesso de suas interpretações produz fatalmente o desencontro entre adultos e adolescentes. Pois se estabelece um fantástico qüiproquó: o adolescente acaba eventualmente atuando, realizando um ideal que é mesmo algum desejo reprimido do adulto. Mas acontece que esse desejo não era reprimido pelo adulto por acaso. Se reprimiu, foi porque queria esquecê-lo. Por conseqüência, o adulto só pode negar a paternidade desse desejo e se aproveitar da situação para reprimi-lo ainda mais no adolescente. (p.27).
Não é difícil, portanto, ao adolescente interpretar o conformismo ou mesmo o ‘legalismo’ dos adultos como sintomas de um desejo que sonha mesmo com transgressões e infrações e que (supõe o adolescente) preferiria portanto um filho malandro a um ‘mauricinho babaca’.
O adolescente é levado inevitavelmente a descobrir a nostalgia  adulta de transgressão, ou melhor, de resistência às exigências antilibertárias do mundo. Ele ouve, atrás dos pedidos dos adultos, um ‘Faça o que eu desejo e não o que eu peço’.  (p.28)
O adulto de hoje (...) transmite a seu rebento a ambição de não repetir a vida e o status dos adultos que o engendraram. Ou seja, de desrespeitar suas origens, de não se conformar, de se destacar. (...) Apesar disso, tudo, os adultos devem também transmitir ao adolescente as regras da conformidade social, necessária para que ele não seja simplesmente inadaptado. Ora,essa transmissão inevitável de princípios morais e valores prezados pelo consenso social aparece ao adolescente como prova de covardia, do oportunismo e do fracasso dos adultos. Se eles prezam a exceção, porque se dobram a rogar a conformidade? A autoridade do adulto é assim minada, pois todos os valores positivos parecem emanar da resignação ao fracasso, de um desejo frustrado de rebeldia ou de unicidade.
Assim,  quanto mais o adulto tenta se constituir como autoridade moral, tanto mais se qualifica como hipócrita, porque a cultura ( e ele junto com ela) promove como ideal aquele que faz exceção à norma. (p.29)
Por fim, o adolescente é levado a concluir que o adulto quer dele revolta. E a repressão só confirma nele essa crença, apenas acrescentando a constatação de que o adulto repressor é hipócrita. (p.30).

Cap. 3 – “COMO CONSEGUIR QUE ME RECONHEÇAM E ADMITAM COMO ADULTO?”

O fato é que a adolescência é uma interpretação de sonhos adultos, produzida por uma moratória que força o adolescente a tentar descobrir o que os adultos querem dele. (...) As condutas adolescentes, em suma, são tão variadas quanto os sonhos e os desejos reprimidos dos adultos. Por isso elas parecem (e talvez sejam) todas transgressoras. No mínimo, transgridem a vontade explicita dos adultos. (p.33)
Os adolescentes são facilmente considerados uma ameaça à ordem estabelecida e à paz familiar.
Os adultos receiam as irrupções transgressivas que os adolescentes podem escolher como maneiras de se afirmar. Mas, sobretudo, os adultos sabem confusamente que o que há de mais transgressor nos adolescentes é a realização de um desejo dos adultos, que estes pretendiam reprimir e esquecer. Se a adolescência é uma patologia, ela é então uma patologia dos desejos de rebeldia reprimidos pelos adultos. (p.34)

(...) a adolescência não é só o conjunto das vidas dos adolescentes. É também uma imagem ou uma série de imagens que muito pesa sobre  a vida dos adolescentes. Eles transgridem para ser reconhecidos, e os adultos, para reconhecê-los, constroem visões da adolescência. Elas podem estar entre o sonho (afinal, o adolescente é a atuação de desejo dos adultos), o pesadelo (são desejos que estariam melhor esquecidos) e o espantalho (são desejos que talvez voltem para se vingar de quem os reprimiu).

Destaca cinco chaves de acesso à adolescência:

1ª) O ADOLESCENTE GREGÁRIO
O adolescente transforma assim sua faixa etária num grupo social, ou então num conglomerado de grupos sociais dos quais os adultos são excluídos e em que os adolescentes podem mutuamente se reconhecer como pares.
Contrariamente às crianças, os adolescentes em geral considerarão que sua verdadeira comunidade não é a família. Isso não é propriamente um efeito da freqüente desagregação dos núcleos familiares (esvaziamento das casas onde todos trabalham, ou separação dos pais). É o inverso: a crise da família revela de fato que os próprios adultos estão tomados por pruridos adolescentes, com ânsia de rebeldias e liberdades (entre elas, a liberdade das responsabilidades de uma família). Essas inquietações juvenis não os aproximam dos adolescentes, os quais esperam deles algo que não encontram em seus coetâneos.(mesma idade)
Nesse grupos, ele procura a ausência de moratória ou no mínimo, uma integração mais rápida e critérios de admissão claros, explícitos e praticáveis (à diferença do que acontece com a famosa ‘maturidade’ exigida pelos adultos). (p.36)
Os jovens gregários transgridem por se bastarem, ou seja, por se reconhecerem entre os pares, dispensando os adultos. (p.38)

2ª) O ADOLESCENTE DELINQÜENTE
(...) o adolescente tem dois caminhos possíveis e compatíveis para obter algum reconhecimento: fazer grupo e fazer estardalhaço, ou ‘besteiras’. Melhor ainda: fazer grupo e com o grupo fazer besteiras. Enfim, se associar para transgredir.
A transgressão tenta encenar o que os adolescentes acreditam ser um desejo recalcado adultos. Há o projeto de entregar como presente para os adultos um comportamento, um gesto, do qual eles teriam sido frustrados e, assim, de merecer uma medalha. (...) O erro dos adolescentes (erro em relação a sua própria estratégia) é pensar que para os adultos possa ser agradável encontrar uma encenação de seu próprio recalque. (p.41)
Eles imaginam que, como delinqüentes, serão amados por serem portadores de sonhos recalcados.
Tolerar não é uma opção, visto que o jovem atua justamente para levantar a repressão. A tolerância só o forçará a atuar com mais violência.
Os adolescentes, então, transgridem e os adultos reprimem. Por um lado, se os adultos reprimem preventivamente, impondo regras ao comportamento adolescente, eles afirmam a não-maturidade dos adolescentes. Em resposta, os adolescentes serão levados a procurar maneiras violentas de impor seu reconhecimento. Por outro lado, a repressão punitiva só manifesta ao adolescente que seu gesto não foi entendido como deveria, ou seja, como um pacote de presente cheio de ideais e desejos reprimidos dos adultos. O que também levará o adolescente a aumentar a dose de rebeldia. (p.43)
Na relação com os adultos (não só sua família), o adolescente, não conseguindo produzir respeito, prefere e consegue produzir medo. O medo é o equivalente físico, real, do que o respeito seria simbolicamente.
A prostituição adolescente com clientes adultos é um bom exemplo de uma maneira de forçar o reconhecimento, quase irônica: ‘Se este corpo não é desejável, por que pagam para tê-lo por um momento?’ (p.44)

3ª) O ADOLESCENTE TOXICÔMANO
Os adolescentes de hoje são os descendentes de uma geração que explicitamente ligou o uso das drogas a todos os sonhos de liberação e revolução (pessoal, sexual, social etc.) que ele agitou e subseqüentemente abandonou e recalcou. (p.45)
O que os adultos receiam, na visão do adolescente drogado, da maconha à heroína e ao crack? Fora os riscos para a saúde e o perigo de encarar conseqüências penais, há uma espécie de temor de que, no baseado ou na pedra, o adolescente encontre um objeto que satisfaça seu desejo, mate sua procura, acabe com a insatisfação. O medo, em suma, de que com a droga o adolescente, de repente, seja feliz. (p.46) (pensar a noção de desejo)
Ora -  na fantasia dos adultos e talvez de fato -, a droga seria o objeto que promete e  entrega uma satisfação acabada, mesmo que apenas momentânea. (...) Por isso a toxicomania talvez seja a transgressão mais preocupante, porque parece minar um pressuposto fundamental do pacto social vigente: a permanência da insatisfação. (p.47)
Não podemos renunciar à insatisfação que nos faz correr e que vitaliza o mundo. Nenhum objeto pode nos satisfazer, pois o que queremos não são coisas e posses, mas atrás delas – reconhecimento ou status. E nada pode extinguir nossa sede desses dois.
A droga é um objeto mortal. Não só porque pode matar o usuário, mas porque – tão grave quanto isso – pode matar seu desejo. (p.48) 

Reabilitação
A reabilitação, trazer alguém de volta da delinqüência, da droga ou da prostituição, é o contrário da infantilização: ela implica o reconhecimento de que quem se perdeu esteve em perigo de verdade.
É isso que almejam todas as condutas extremas da adolescência transgressora: convencer o outro de que a vida do adolescente não é nenhum limbo preparatório, ela está acontecendo de verdade, como a vida adulta. (p.49)

4ª) O ADOLESCENTE QUE SE ENFEIA
Pode ser que o ato de se enfeiar corresponda a uma recusa da sexualidade e, sobretudo, da desejabilidade como valor social.
Pode ser também que o adolescente se enfeie para se  proteger de um olhar que poderia não achá-lo desejável. (...) a feiúra é também uma espécie de exibicionismo escancarado, a proposta de um erotismo fora de norma, a promessa de uma armadilha sexual que não se preocupa em passar pelos ícones socialmente aceitos da desejabilidade.
O ‘piercing’ umbilical das garotas é exemplarmente tudo isso ao mesmo tempo. É uma lembrança do nenê de umbigo apenas cicatrizado. É uma curiosa distração lúdica no caminho do órgão genital, ou uma alusão a uma fechadura de castidade. É, sobretudo, uma maneira de chamar o olhar para o encontro permanente, não tão longe da vagina, de uma abertura do corpo com algo metálico e duro. (p.50)
Dos Garotos: (...) os centímetros de cueca expostos acima do cós baixado. Eles são uma recusa da sexualidade pela infantilização (a cueca à vista evoca uma história de cocô-xixi e de fraldas), uma maneira preventiva de se ridicularizar logo nos arredores dos órgão genitais, mas também a promessa de um permanente interesse com o que está nas cuecas ( a cueca fica, por assim dizer, sempre em riste).
No conjunto, as transgressões estéticas que parecem assinalar e prometer transgressões sexuais ou morais são esforços para encontrar algum conforto no olhar indignado ou assustado dos adultos. (...) Na verdade, a grande maioria dos adolescentes de cabelos ultraloiros, brincos, tatuagens e cara feia, caso se encontrassem a si mesmos numa rua escura, trocariam de calçada preocupados ou correriam para casa assustadíssimos. (p.51)

5ª) O ADOLESCENTE BARULHENTO

Em todas as suas tentativas de desafiar e provocar, o adolescente encontra uma dificuldade: por mais que invente maneiras de se enfeiar, de se distanciar do cânone estético e comportamental dos adultos, a cada vez, rapidamente, a cultura parece encontrar jeitos de idealizar essas maneiras, de transformá-las em comportamentos aceitos, até desejáveis e invejáveis. Ou seja, o adolescente descobre que sua rebeldia não pára de alimentar os ideais sociais dos adultos. (p.53)


MATERIAL INDICADO DAS AULAS DE PSICANÁLISE DO PROFESSOR DR. GERSON HEIDRICH